Não sem sofrimento

Suspeito que, em algum dicionário de ciências ocultas, Copa Libertadores deve ser sinônimo de “sofrimento”, ao menos para o torcedor riverplatense. Isto foi uma vez mais confirmado no jogo desta noite com Universidad Católica. River alcançou a vantagem aos 43PT e, ao que tudo indicava, poderia sair de Santiago com uma cômoda vitória.
Mas o time da casa empata logo aos 2ST numa bonita jogada do brasileiro Airton. Mais uma falha grave da a defesa de River, que não marcou o homem da UC que recebe a bola absolutamente livre no canto direito da área de River, desborda, e mete o centro rasteiro atrás para Bottinelli decretar o 1 a 1.
A partir dali, a UC passou a dominar a bola e o campo. River somente respondia com contra-ataques esporádicos, voltando a ser uma sucessão de passes errados e ataques frustrados. Não se pode dizer que nossos jogadores não deixem suor em campo, mas é evidente que River continua longe de ter um jogo sólido e que imponha respeito.
Salvo no primeiro gol de River, em que Abreu toca para o gol vazio depois de boa jogada de Augusto, e de uma bola que baixa de cabeça para Ortega no ST, “Loco” Abreu foi inoperante. River perde diversos ataques porque Abreu simplesmente pára a bola com a canela e desperdiça a jogada. Até quando, no ST, tentou “ajudar” a defesa, Abreu deixou passar perigosamente livre o atacante da UC dentro da área de River.
Estático, Abreu espera que as bolas simplesmente caiam na sua cabeça, ao invés de ir buscá-las como todo centro-avante deve fazer. A TV chilena mostrou, por diversas vezes, Abreu trotando lentamente pelo campo, falando muito com o árbitro brasileiro, e gesticulando o tempo todo para seus companheiros, como reclamando que os centros não eram colocados exatamente na sua cabeça. É incrível, mas este River de Simeone por momentos parece jogar quase exclusivamente para ele.
Alexis foi uma decepção, justamente quando todos esperavam uma sólida atuação do chileno em sua terra. Jogou a maior parte do tempo longe da área adversária e não produziu praticamente nada no ataque. Como a faixa direita estava ocupada por Augusto, Alexis tentou por vezes cair pela esquerda, mas é evidente que lhe falta ofício para jogar por ali.
Villagra continua deficiente e inseguro como marcador lateral, e inexiste no ataque. A UC percebeu esta séria deficiência de River e, no ST, passou a atacar mais por esse flanco. A melhor jogada de Villagra continua sendo se virar e passar a bola para o lado ou para trás, onde geralmente encontra Ponzio ou Tuzzio.
Abelairas, por ser canhoto, poderia ocupar melhor a faixa esquerda do ataque como um falso ponta-esquerda, mas esta noite, mais uma vez, foi possível ver grandes espaços vazios por esse lado. Praticamente ninguém de River ataca pela esquerda.
Depois do gol contra, River passou quase todo o ST vendo como a UC tocava a bola de um lado a outro, e por momentos deu a impressão de estar satisfeito com o empate, coisa perigosa se recordarmos o que aconteceu com América de México no Monumental.
River só voltou a melhorar com a entrada de Buonanotte e Mauro Rosales. O baixinho, como sempre, aportou grande produção ofensiva, caindo principalmente pela esquerda, e foi o artífice da jogada do segundo gol. Mauro ocupou bem a faixa direita do ataque, sua especialidade e, antes de converter seu gol, perdeu outro incrível debaixo da trave.
Em resumo, River ganhou finalmente de visitante e agora respira aliviado. Porém, persiste uma alarmante falta de personalidade. River não se impõe, não atropela o adversário como um aspirante a campeão. Além disso, o esquema de jogo de Simeone é confuso e faz com que todos tenham que correr muito e errem muitos passes.
Como geralmente acontece, a vitória desta noite servirá para esconder um futebol por longos minutos feio e deficiente. Pelo menos, seguimos em carreira.
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